O relacionamento entre o líder e o jovem, partindo da bíblia.

A Bíblia está repleta de exemplos de líderes que caminham com os jovens, tornando farto o material que pode ser analisado a este respeito. Moisés levou consigo Calebe para caminhar de perto com ele. Noemi orientou Rute. Saul teve um relacionamento com Davi, ainda que tenso. O relacionamento de Davi com Samuel foi melhor. Mardoqueu orientou Ester em tudo o que pôde. Jó, Elifaz, Bildade e Zofar foram pacientes com Eliú. Daniel soube se conduzir, ainda que diante de um megalomaníaco como Nabucodonozor. O grupo de Jesus era, praticamente, formado de jovens, sendo, Ele mesmo, um jovem maduro. Paulo foi longânimo com Timóteo e mais enfático com João Marcos.

Dentre tantos relacionamentos supracitados, talvez o que tenhamos mais informações seja o relacionamento entre Paulo e Timóteo. Provavelmente estando na fase final de sua adolescência, Timóteo foi selecionado por Paulo para participar da caravana missionária (At 16.1-3), reorganizada, com Silas em lugar de Barnabé (At 15.-39-40).

Paulo, poliglota, ph.d. em teologia rabínica, formado em uma das escolas de maior prestígio epocal, incorpora Timóteo, judeu-helênico, incircunciso (At 16.3), mas de bom testemunho de todos da região (At 16.2). Um elemento essencial no relacionamento entre o líder e o jovem é a necessidade de se desejar andar junto (“Paulo quis que Timóteo fosse com ele”, At 16.3). Mais do que qualquer outro método ou discurso, para se transmitir vida, ensinar ou liderar é necessário caminhar junto.

Caminhe junto para chegar ao mesmo lugar.

Paulo toma Timóteo na caravana e agora eles iriam junto até o mesmo lugar. Como andarão dois juntos se não estiverem de acordo? – pergunta Amós (3.3). Deve haver congruência de propósitos. O líder precisa deixar bem claro ao liderado para onde estão indo e imbuí-lo do desejo de chegar.

Caminhe junto respeitando a diferença de estilo da caminhada.

Tem gente que faz corrida rústica, outros trotam. Alguns andam “dez para duas”, outros caminham na ponta dos pés. Caminhar junto não significa assassinar a individualidade, mas aprender que o diferente nem sempre é o errado. Paulo era colérico e Timóteo era fleumático. Deus abençoou ambos. Paulo fôra fariseu e Timóteo tinha ascendência mista (At 16.1). Na caminhada devemos levar em conta a criação, personalidade e jeito da pessoa. O essencial é o caráter e a vontade de aprender.

Caminhe junto com passadas diferentes.

Um tem passos mais amplos, outro, mais curtos. Cada um tem o seu ritmo. Paulo era doutor, Timóteo nem bacharelato. Líder e liderado devem reconhecer sua capacidade mútua e saber seu talento, utilizando-o (Mt 25.29). Paulo não colocou Timóteo para pregar no areópago, mas o mesmo foi utilíssimo em Tessalônica (At 17.15). O líder deve ter a capacidade de discernir capacidades. Em breve tempo em Listra e Derbe percebe a capacidade de Timóteo e leva-o (At 16.1). Timóteo nunca se tornou Paulo, mas a história de Paulo precisava de um Timóteo. Paulo levou Timóteo a alcançar o melhor que podia, e não o nível de Paulo.

Caminhe junto apesar dos sapatos diferentes.

Sapatos revelam nosso gosto e condição. Tem gente que gosta de nike, mas não pode comprá-lo. Tem gente que pode, mas não gosta. Tem gente que gosta e pode. Há coisas que um pode gostar e o outro não: cinema, futebol, estar mais com a família. Isto não é ser mais nem menos que o outro. São gostos diferentes. Timóteo era mais diplomático e carismático (2Tm 1.4), Paulo era mais direto e enfático (Gl 2.11-12). Haverá atividades que, apesar de um não gostar muito, deverá ver o que é melhor para a maioria. O gosto do líder não deve ser o fiel da balança para o desenvolvimento de uma atividade ou para a ministração de cânticos.

Caminhe junto atento às consistências.

Cada um tem um biótipo, uma herança genética e ambiente no qual desenvolveu-se. Há consistências maiores e menores, dependendo da idade, mentalidade e exercícios. Jô Soares não caminhará como Usain Boldt, mas cada qual tem sua importância. A consistência de Paulo e Timóteo era similar, mas de vez em quando Paulo precisava dar uma incentivada em Timóteo (1Tm 4.12; 2Tm 2.15). Cada qual deve levar a sua cruz (Lc 9.23), que foi carpida pelo Senhor. O que devemos lembrar sempre é que Ele carpiu-a conforme a medida de nossa fé nEle (1Co 10.13; Rm 12.3).

Jamais devemos perder de vista que nem todo líder é Paulo. Tem Arão… Tem Saul… Tem Absalão… Tem Sambalate… Tem Nabucodonozor… E também, nem todo jovem é Timóteo. Tem Judas… Tem Alexandre, o latoeiro… Tem Pedro… Tem Geazi… Deus envia os Seus à igreja para serem cuidados. O inimigo também semeia o joio no meio do trigo. A palavra de Jesus é que devemos deixar ambos crescerem juntos (Mt 13.28-30), Paulo diz que isto ocorre para a manifestação da sinceridade dos que creem (1Co 11.19) e para sejam julgados os que não creram na verdade (2Ts 2.11-12). Caminhando nos passos do Mestre, refletindo e vivendo o ministério como Ele e sendo motivados pelo amor, conseguiremos ver cumprida e concretizada a promessa de Isaías, que caminharemos e não nos fatigaremos (Is 40.31).

Sobre o autor

Pr. Henrique Araujo

Pr. Henrique Araujo

Deão do Seminário Teológico Betel

Pastor Henrique Araujo casado com Sarah Araujo, é Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Betel, Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, Mestre em Ministérios Globais pelo Seminário Teológico Betel, Bacharel e Licenciado em Letras: Português-Grego pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, PhD em Teologia pelo Trinity Theological Seminary and College of the Bible. É professor da graduação e pós-graduação, e Deão do Seminário Teológico Betel, e do Centro de Formação Teológica Metodista.

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